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Fé e Bíblia: candidatos apostam na religião para atrair votos
Um levantamento realizado pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab UFRJ) mostra como 24 candidaturas ao Senado utilizaram a ferramenta de segmentação por interesses da Meta para direcionar anúncios no Facebook e Instagram durante a campanha eleitoral.
O estudo, intitulado “O eleitorado sob medida”, revela que as 12 campanhas da oposição ao governo federal somaram 312 escolhas de interesses, enquanto as 12 da base governista registraram 208.
A pesquisa analisou a estratégia das campanhas para atingir públicos específicos nas plataformas digitais. Os interesses selecionados pelos candidatos incluíram temas variados, como Bíblia, pastores, agronegócio, policiais militares, família, educação, vagas de emprego e até mesmo produtos da Apple, como o Apple Watch e o MacBook Pro.
Os pesquisadores identificaram 294 categorias de segmentação, agrupadas em 13 macrotemas. Enquanto a oposição fez uso de todas as 13 categorias disponíveis, a base governista utilizou 12 delas e não recorreu a nenhum interesse do grupo “religião/teologia”.
Os números revelam contrastes significativos entre os dois campos políticos. No agronegócio, a oposição fez 59 escolhas, contra apenas 14 dos governistas. Em forças de segurança e militarismo, foram 48 escolhas da oposição, ante 11 da base. Já em religião e teologia, a oposição somou 31 escolhas, enquanto a base não registrou nenhuma.
Entre os candidatos de oposição, Alexandre Curi (Republicanos-PR) se destacou pela diversificação: sua campanha utilizou 12 das 13 macrocategorias, abrangendo desde produtos tecnológicos da Apple até comerciantes, pastores e Bíblia. Zequinha Marinho (Podemos-PA) também incluiu a Bíblia entre seus interesses, combinando-a com agricultura, pecuária, família, patriotismo e empreendedorismo.
Bruno Scheid (PL-RO) concentrou 17 escolhas em religião e teologia, com ênfase em pastores e estudos bíblicos. Mariana Carvalho (União-RO) direcionou 15 escolhas para forças de segurança e militarismo, incluindo policiais militares. Outros candidatos da oposição mesclaram interesses de agronegócio, economia, segurança, saúde e família.
Do lado governista, os temas mais recorrentes foram política e ativismo, educação e sociedade civil organizada — cada um desses grupos foi utilizado por oito das 12 candidaturas analisadas.
A coordenadora-geral do NetLab UFRJ, Débora Salles, pondera que o volume de escolhas não é necessariamente um indicador de maior eficiência ou sofisticação. “Embora o relatório apresente evidências de que os candidatos da oposição utilizaram o recurso da segmentação de forma mais diversificada, não é possível afirmar que essa atuação é mais sofisticada ou mais eficaz”, explicou.
Segundo a pesquisadora, os dados indicam que as campanhas têm direcionado seus anúncios prioritariamente para grupos já alinhados com suas próprias identidades políticas. “A publicidade é usada como forma de pregar para convertidos. Pouco se aproveita a segmentação de interesses para chegar a usuários com interesses diversos das identidades políticas”, afirmou.
O relatório do NetLab aponta ainda que a maioria das candidaturas monitoradas optou por deixar que o algoritmo da Meta definisse automaticamente a distribuição dos anúncios. Para os pesquisadores, tanto a seleção manual de interesses quanto a distribuição automática tendem a alcançar pessoas que já demonstram afinidade com os temas associados aos candidatos.
“A seleção manual reforça esse padrão ao mirar interesses próximos da identidade política de cada grupo; a automática depende do sistema de recomendação da plataforma”, explica o estudo. Débora Salles avalia que esse modelo acaba reduzindo a exposição dos eleitores a posições políticas divergentes.
A segmentação por interesses é permitida pelas normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas está sujeita a regras de transparência e proteção de dados, incluindo a obrigação de divulgar os critérios utilizados para definir o público-alvo dos anúncios. A legislação também prevê cuidados adicionais quando a publicidade envolve dados pessoais sensíveis, como aqueles que podem revelar convicção religiosa ou opinião política. Com: Exibir Gospel.
