capa
John Piper alerta cristãos sobre o consumo de notícias ruins: “Doomscrolling”
O teólogo John Piper, fundador do ministério Desiring God e chanceler do Bethlehem College and Seminary, tem convidado os cristãos a repensarem a maneira como se relacionam com o noticiário trágico. Em sua avaliação, cada manchete negativa não deve alimentar o vício pelo “doomscrolling” — o hábito compulsivo de consumir sucessivas notícias ruins —, mas sim atuar como um estímulo à reflexão e ao arrependimento.
Em episódio recente do programa Ask Pastor John, Piper, atualmente com 80 anos, fez uma reflexão a partir de Lucas 13:1-5. No trecho, Jesus reage a duas tragédias com um chamado ao arrependimento, em vez de incentivar especulações sobre os pecados das vítimas. O pastor ressaltou que essa passagem serve como bússola para os crentes diante do bombardeio constante de más notícias.
“Você merece o mesmo, portanto, arrependa-se”, resumiu Piper, sintetizando a mensagem de Cristo. “É exatamente isso que o sofrimento deve produzir em você: um coração penitente.”
A resposta de Jesus e o perigo da autocomiseração
Ao responder à pergunta de um ouvinte sobre se Deus deseja que os cristãos estejam perpetuamente expostos a tragédias, Piper citou a reação de Jesus ao ser informado de que o governador Pôncio Pilatos havia assassinado galileus durante um ato de adoração. Em vez de concentrar-se na culpa das vítimas, Cristo desviou o foco para a condição espiritual de todos os presentes.
O autor de Don’t Waste Your Life enfatizou que muitas pessoas tendem a supor que aqueles que padecem de forma brutal merecem mais castigo do que os demais — mas Jesus rejeita terminantemente essa lógica.
“O que Ele nega é que possamos identificar diferentes níveis de maldade nas pessoas com base no grau de sofrimento que experimentam”, explicou Piper. “E o que Ele afirma é que você — que está me fazendo essa pergunta, e creio que isso se aplica a todos nós — está tão sujeito a perecer quanto eles. A menos que se arrependa, também perecerá.”
Piper esclareceu que o alerta de Cristo sobre o perecer tem como referência última o juízo eterno. A resposta adequada à tragédia, portanto, não é a autopiedade nem a presunção, mas a gratidão por dispor de mais um dia para se converter.
O aprendizado com R.C. Sproul e o consumo passivo de notícias
Baseando-se em um sermão do já falecido teólogo R.C. Sproul, intitulado The Locus of Astonishment (O Lugar da Surpresa), Piper recordou o impacto que a mensagem causou nele anos atrás, enquanto pintava um cômodo de sua casa. Sproul argumentava que os cristãos frequentemente depositam seu assombro no lugar errado.
“O que deveria te surpreender é que você não estava entre os mortos”, parafraseou Piper. “Você não estava sob a torre quando ela desabou. Isso é o que realmente causa espanto: que você e eu ainda estamos respirando e temos tempo para nos arrepender e escapar do perecimento.”
Piper fez um alerta contra o consumo de tragédias meramente por entretenimento, choque ou estímulo emocional — conduta conhecida como “doomscrolling”.
“Ficar olhando as notícias todo dia no celular só porque são interessantes, chocantes ou excitantes não é saudável”, afirmou. “Essa não é uma motivação legítima.”
Seis razões bíblicas para acompanhar o sofrimento mundial
Piper elencou seis fundamentos bíblicos para que os cristãos mantenham-se atentos ao sofrimento ao redor do globo. Em primeiro lugar, as notícias sobre tragédias devem conduzir os crentes ao arrependimento de seus próprios pecados; em segundo, servem para recordar que Deus é soberano sobre a dor; em terceiro, preparam os cristãos para as aflições que Jesus anunciou; em quarto, o exemplo de fiéis que enfrentam dificuldades encoraja outros a perseverarem; em quinto, a consciência da perseguição global reforça que ninguém sofre isoladamente; e, por último, conhecer as regiões onde há sofrimento possibilita que os cristãos atuem em favor dos necessitados.
“Nós não somos Deus”, concluiu Piper, “e não temos capacidade emocional para suportar todo o sofrimento do mundo. Se víssemos cada dor que ocorre, seríamos arrasados. Não podemos carregar esse peso. Somos humanos. Devemos, sim, buscar conhecer os sofrimentos que nos impulsionam à ação e nos tornam cristãos mais maduros.”
Dados sobre o ‘doomscrolling’ e a perspectiva cristã
Segundo levantamento da Morning Consult em 2024, cerca de 31% dos adultos norte-americanos praticam regularmente o “doomscrolling”, sendo que 51% da geração Z e 46% dos millennials se reconhecem presos nesse ciclo. Além disso, uma revisão de estudos publicada em abril de 2023 na revista Applied Research in Quality of Life, que analisou três pesquisas com aproximadamente 1.200 adultos, concluiu que o hábito está associado à deterioração do bem-estar mental e da satisfação com a vida.
Recentemente, o pastor Max Lucado também abordou o tema em entrevista ao The Christian Post, comentando sobre como os cristãos devem lidar com as más notícias. Ele observou que Elias, assim como confrontou o mal quando necessário — enfrentando reis e profetas falsos com coragem —, também soube retirar-se para momentos de solidão, permitindo que Deus o restaurasse antes de retornar à sua missão.
“Elias teve momentos em que confrontou o mal”, disse Lucado, “e outros em que se afastou.”
“Acredito que há dois grandes ensinamentos na vida de Elias”, acrescentou. “Primeiro, você sabe em quem acredita. Tenha isso bem firme. O título da história de Elias é: ‘O Senhor Deus de Israel vive’. E segundo, confie que Deus proverá o necessário para cumprir o seu chamado.”
A mensagem central, portanto, é inequívoca: os cristãos devem evitar o consumo passivo e desenfreado de tragédias, direcionando seu olhar para o arrependimento, a esperança em Deus e a ação prática em meio ao sofrimento do mundo. (Com informações de Leah MarieAnn Klett – Christianpost). Com: Comunhão..
