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opinião

Existe conhecimento bíblico verdadeiro?

Então surge a “hermenêutica” pós-moderna, com seu conceito de “desconstrução” e teorias literárias que depositam no leitor (ou numa comunidade de leitores) o protagonismo na definição da mensagem.

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Bíblia. (Foto: Katie175 por Pixabay)

A pergunta que encima este artigo pode parecer estranha à primeira vista, mas ela se faz necessária porque alguns teólogos “evangélicos” – alguns deles pentecostais da minha querida Assembleia de Deus! – têm disseminado a tese de que, embora a Bíblia seja a Palavra de Deus, tudo o que temos disponível é apenas interpretação, e não o conhecimento real, verdadeiro e absoluto da Palavra do Senhor.

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Esses teólogos, geralmente de inclinação pós-moderna, dizem crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas anulam esta afirmação ao emendarem que as interpretações são parciais e precárias, porque necessariamente baseadas em (ou conduzidas por) “premissas” ou “pressupostos”.

Diferentemente, entendemos que se, por um lado, toda interpretação se opera sob premissas, por outro lado o Espírito nos ilumina e propicia o conhecimento verdadeiro, moldando nossos pressupostos!

Em apoio a essa descrença na possibilidade de conhecimento bíblico verdadeiro e absoluto estão frases como “Nada podemos conhecer absolutamente”, “A doutrina é só o que se pensa da Bíblia”, “A teologia é só o que se pensa da doutrina”, “Devemos fugir da bibliolatria”, “A Pessoa de Cristo é Quem revela a verdade, não a doutrina”, “Existem várias interpretações permitidas por um único texto”, “As confissões de fé são fruto de disputas meramente políticas”, e outras frases tão encantadoras quanto perigosas.

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Quem afirma que “Não existe possibilidade de conhecimento absoluto da Bíblia” está, na realidade, negando que a Bíblia seja absoluta, pois não haveria nenhum cabimento em a Bíblia ser absoluta e, ao mesmo tempo, não fornecer conhecimento absoluto de si mesma. Ou estaria a Bíblia num labirinto, tentando revelar a verdade, mas esbarrando nos limites impostos pela realidade humana? Seria Deus poderoso somente para revelar, inspirar e preservar o cânon, mas incapaz de propiciar conhecimento real, verdadeiro e absoluto do que foi revelado, inspirado e preservado?

Cria-se, com isso, um tipo esquisito de cristianismo, que seria um “cristianismo agnóstico” (do grego: a, “não”, e gnostos, “conhecimento”).

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É bem curioso que esses homens estejam escrevendo, pregando e palestrando sobre “hermenêutica”, pois o que eles promovem não é o ensino de premissas, regras e métodos de interpretação – algo seria o objeto próprio da ciência e arte hermenêutica: o que eles promovem está no campo da epistemologia (do grego: episteme, “ciência”, e logia, “discurso”, “estudo”). Assim, enquanto falam de como interpretar a Bíblia, e encarecem o papel do leitor e seus pressupostos (pessoais, sociais, econômicos, culturais, experienciais), espalham dúvidas sobre a possibilidade do próprio conhecimento verdadeiro e absoluto.

Observo, a título de comentário lateral, que esses teólogos também questionam os conceitos tradicionais de revelação, inspiração e canonicidade, mas isto se reserva a outros artigos – o ponto aqui é a viabilidade ou não de conhecimento seguro da Bíblia (e, portanto, da verdade), o que conduz a questões aparentemente hermenêuticas, mas efetivamente epistemológicas: existe uma interpretação correta? Se existe, é a única?

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No terreno da hermenêutica, sabemos que existem textos “obscuros”, tradições (e traduções) variadas, diferentes confissões de fé e correntes teológicas as mais diversas, várias interpretações ofertadas para uma mesma passagem bíblica, fenômenos que podem conduzir muitos leitores à perplexidade perante o texto bíblico, mesmo porque nós, leitores, somos todos humanos.

No entanto, os protestantes (conservadores, temos de explicitar) creem que a Bíblia é absoluta e inerrante – estes são pressupostos válidos de leitura da Bíblia – e por isso não podem existir diferentes interpretações igualmente corretas para uma mesma passagem: somente existe uma interpretação correta, o que não afasta as múltiplas aplicações permitidas pelo campo semântico (campo de significado).

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Se pensarmos que existem interpretações corretas para um mesmo texto, estaremos afirmando a relativização da verdade. E se pensarmos que não existe interpretação correta, onde acharemos descanso e segurança na Escritura? O apóstolo Pedro encontrou segurança somente nas palavras de Jesus (cf. Jo 6.68).

Ademais, seria bom convidar os teólogos pós-modernistas para a análise de textos em que a própria Bíblia fala de um conhecimento real, verdadeiro e absoluto (de Deus, de Jesus Cristo, da glória de Deus). Vejamos, pois, uma sequência de textos nesse sentido:

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A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre” (Sl 119.160).

“Então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus” (Pv 2.5).

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“Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6.6).

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).

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“Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa” (I Co 15.34).

“Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (II Co 4.6).

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“E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10).

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (I Tm 2.4).

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“Paulo, servo de Deus, e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade” (Tt 1.1).

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor;

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Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (II Pe 1.2,3).

Esses são somente alguns dos muitos textos bíblicos que poderíamos citar – tive dificuldade de selecionar apenas uma pequena quantidade de versículos, pois a Bíblia é farta em dar testemunho de ser ela mesma a verdade e o meio exclusivo de se obter o conhecimento de Deus em Cristo.

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O que resta deixar bem claro é que, longe de ser uma “proposta hermenêutica”, a “teologia” que duvida da viabilidade de um conhecimento bíblico real, verdadeiro e absoluto está num terreno filosófico, diferente do hermenêutico.

Para o hermeneuta cristão as perguntas básicas são “O que diz o texto”? “Como posso saber o que o texto diz?” Para a epistemologia (área da filosofia) as perguntas giram em torno de “Se o texto diz alguma coisa, é possível conhecer o que ele diz?” Mais do que isso: “O que é conhecer?”

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Então surge a “hermenêutica” pós-moderna, com seu conceito de “desconstrução” e teorias literárias que depositam no leitor (ou numa comunidade de leitores) o protagonismo na definição da mensagem. Essa “hermenêutica” já começa perguntando “O que é texto?”, “Quem é o leitor?”, “Qual a relação do leitor com o texto?” É aqui que você compra um livro de “hermenêutica pentecostal” baseada na experiência e pensa que ali vai aprender sobre como interpretar o Bíblia, até que seja alertado para a dúvida fundamental que rege a proposta do livro, pois sequer se tem firmeza quanto à viabilidade de acessar a verdade absoluta.

A Bíblia não pode ser lida, estudada, interpretada ou aplicada como um livro comum – ela é a Palavra divinamente inspirada, inerrante, infalível, autoritativa, absoluta, suficiente e eterna. É com estes pressupostos que ela deve ser contemplada… a menos que o leitor não veja na Escritura mais do que uma peça literária qualquer – esse é o seu caso?

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Co-pastor da sede da Assembleia de Deus em Salvador. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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