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Pesquisa: religião pesa para os evangélicos na hora do voto, mas não é decisiva

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A mais recente pesquisa PoderData/Aya, realizada entre os dias 23 e 26 de agosto de 2026, trouxe à tona um contraste interessante no eleitorado brasileiro: embora a maioria dos entrevistados afirme que a religião dos candidatos não influencia sua escolha nas urnas, os cruzamentos por identidade religiosa revelam diferenças expressivas nas preferências eleitorais.

De acordo com o levantamento, 63% dos brasileiros dizem que a fé do postulante não é um fator relevante na hora de decidir o voto. Em contrapartida, 31% consideram esse aspecto importante, e 6% não souberam responder. O dado indica que, para a maior parte da população, critérios como propostas de governo, desempenho da administração atual, economia, segurança e afinidade política pesam mais do que a crença religiosa do candidato.

A rejeição à influência religiosa na gestão pública é ainda maior: 68% dos entrevistados afirmam que os candidatos não deveriam pautar seus planos de governo com base em suas convicções religiosas. Apenas 24% defendem que a fé oriente a formulação de políticas públicas, enquanto 8% não opinaram.

O cenário, porém, ganha novos contornos quando os dados são filtrados por grupo religioso.

Evangélicos se destacam no peso da fé

Entre os evangélicos, a religião do candidato tem um peso bem acima da média nacional. Conforme o detalhamento da pesquisa, 44% desse grupo consideram a fé do postulante um fator importante para o voto, e 36% acreditam que os programas de governo deveriam ser orientados por princípios religiosos. Entre os católicos, esses índices caem para 32% e 25%, respectivamente.

Essa diferença de percepção se reflete diretamente nas intenções de voto. No universo evangélico, Flávio Bolsonaro (PL) lidera com 46%, contra 26% de Lula (PT). Já entre os católicos, a disputa é mais acirrada: Lula tem 39%, e Flávio, 36%.

O quadro muda drasticamente em outros segmentos. Entre adeptos de religiões de matriz africana, Lula alcança 59%, enquanto Flávio fica com 14%. Entre os que não têm religião, o petista marca 51%, ante 22% do senador. No grupo de ateus, a vantagem de Lula é ainda maior: 52% contra 14% de Flávio.

Dois fenômenos distintos

Os números ajudam a separar duas realidades que muitas vezes são confundidas: ter uma identidade religiosa e votar exclusivamente a partir dela. A pesquisa não sugere que 63% dos brasileiros sejam indiferentes à religião. O que os entrevistados afirmam é que a fé do candidato não é, para eles, um critério determinante. Isso é bem diferente de dizer que a crença religiosa não influencia sua visão de mundo ou suas escolhas políticas.

O próprio cruzamento dos dados reforça essa distinção. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 42% consideram a religião um fator importante para o voto, enquanto 53% dizem o contrário. No eleitorado de Lula, a diferença é maior: apenas 26% veem a fé como relevante, contra 69% que não a consideram.

Resultado semelhante aparece quando o tema são os programas de governo. A identidade religiosa tem mais peso em determinados grupos e bases eleitorais, mas isso não significa que esses eleitores queiram um Estado organizado exclusivamente a partir de princípios religiosos.

Evangélicos seguem no centro da mira

Os dados ajudam a explicar por que o eleitorado evangélico permanece como um dos principais alvos da campanha presidencial de 2026. O segmento é uma das bases mais sólidas de Flávio Bolsonaro, enquanto Lula tenta reduzir a resistência nesse grupo. Segundo o levantamento, 61% dos evangélicos desaprovam o governo Lula, o que ajuda a entender a dificuldade do petista em avançar entre eles.

A movimentação política em torno desse público tem sido intensa. Lula ampliou o diálogo com lideranças evangélicas e participou de agendas voltadas ao segmento. A primeira-dama Janja também tem marcado presença em iniciativas de aproximação com representantes do universo gospel. Do outro lado, Flávio busca consolidar sua vantagem, explorando pautas de costumes e adotando uma linguagem política explicitamente associada à fé.

Esse embate ocorre em um momento em que a corrida presidencial está bastante acirrada. Na mesma rodada do PoderData/Aya, divulgada em 27 de agosto, Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% de Flávio. Em um eventual segundo turno, o empate técnico se repete: 45% para Lula e 44% para Flávio.

Fé, identidade e voto: uma relação complexa

O levantamento sugere que o papel da religião na eleição não pode ser resumido à pergunta sobre se a fé “define” o voto. Há uma distinção importante entre voto determinado pela religião, identidade religiosa associada a posições políticas e avaliação de governo influenciada por valores religiosos.

É nesse espaço intermediário que os dados ganham relevância. A maioria dos brasileiros não quer que a religião do candidato seja o principal critério de escolha, tampouco defende que crenças religiosas determinem os programas de governo. Ainda assim, os grupos religiosos apresentam comportamentos eleitorais distintos e ajudam a compor as bases de apoio dos candidatos.

Para os evangélicos, isso significa que o segmento continua sendo estrategicamente importante, mas não deve ser tratado como um bloco homogêneo. A própria pesquisa mostra que mais de um terço dos evangélicos não considera a religião do candidato relevante para o voto, e uma parcela ainda maior não defende que crenças religiosas orientem integralmente os programas de governo.

A disputa de 2026, nesse sentido, coloca uma questão fundamental para candidatos e igrejas: até que ponto a fé influencia a política sem necessariamente determinar o voto?

A resposta da pesquisa parece estar menos em um “voto religioso” uniforme e mais na combinação entre fé, valores, avaliação de governo, identidade política e as circunstâncias concretas de cada eleição.


Principais números da pesquisa:

  • 63% não consideram a religião do candidato importante para definir o voto

  • 31% consideram esse fator relevante

  • 68% são contra programas de governo orientados por crenças religiosas

  • 24% defendem essa influência

  • 44% dos evangélicos dão importância à religião do candidato

  • 46% dos evangélicos votariam em Flávio Bolsonaro

  • 26% dos evangélicos votariam em Lula

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