música
CCB é referência na formação de músicos para orquestras
A história da música erudita ocidental está profundamente ligada à tradição religiosa, especialmente ao papel desempenhado pela Igreja na formação de músicos e compositores. Durante séculos, parte significativa da produção musical foi criada para louvar a Deus e integrar a liturgia cristã.
Com o passar do tempo, no entanto, mudanças sociais e religiosas alteraram o cenário da formação musical. No Brasil contemporâneo, um número crescente de músicos que chegam às orquestras profissionais tem origem em igrejas evangélicas, especialmente pentecostais.
Herança religiosa
Ao longo da história, diversas obras fundamentais da música clássica surgiram em contextos religiosos. Compositores como Antonio Vivaldi, que também era padre, dedicaram parte de suas carreiras à música sacra.
No Brasil do século XVIII, figuras como Frei Jesuíno do Monte Carmelo também combinaram atividades artísticas e religiosas, atuando como pintor, escultor, arquiteto e compositor.
Esses exemplos mostram como, durante muito tempo, as instituições religiosas foram centros importantes de formação musical e produção cultural.
Cenário brasileiro
Nas últimas décadas, mudanças no perfil religioso do país alteraram esse panorama. Com o crescimento das igrejas evangélicas, especialmente nas periferias urbanas, essas instituições passaram a desempenhar papel relevante na formação de novos músicos.
Segundo o maestro Cláudio Cruz, diretor musical da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp), entre 80% e 90% dos músicos da orquestra têm ligação com igrejas pentecostais.
Muitos deles vêm da Congregação Cristã no Brasil (CCB), uma das maiores denominações evangélicas do país. De acordo com dados do Censo de 2010, a igreja possuía cerca de 2,29 milhões de fiéis, número que atualmente ultrapassa 4 milhões, segundo estimativas da própria instituição.
Tradição musical da CCB
A Congregação Cristã no Brasil possui forte tradição musical. A denominação é conhecida por manter grandes conjuntos instrumentais em seus cultos, o que levou alguns observadores a chamarem suas formações de “a maior orquestra do Brasil”.
A igreja mantém uma postura discreta em relação à divulgação pública de suas atividades. Seus líderes não recebem remuneração e as composições utilizadas nos cultos geralmente não são assinadas individualmente, pois a instituição valoriza a ideia de que a música pertence à comunidade de fé.
Segundo Cláudio Moraes, encarregado regional responsável pelas orquestras da denominação em partes do estado de São Paulo, a ausência de autoria individual reflete uma visão espiritual da produção musical: “Ninguém é exaltado. Se o que temos veio de Deus, então a obra é de Deus”, afirmou, em entrevista à BBC.
Formação musical
Muitos músicos que hoje integram orquestras profissionais começaram a tocar ainda crianças dentro das igrejas.
É o caso do violinista Jhony Santos, atualmente integrante da Ojesp. Ele iniciou seu contato com a música aos seis anos de idade na igreja em Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo.
Mesmo com uma carreira em ascensão — incluindo apresentações internacionais — ele continua participando dos cultos de sua igreja.
Segundo o músico, o objetivo nesses momentos é diferente do ambiente profissional.
“Na igreja eu toco para adorar a Deus. O importante é fazer música com o coração”, disse.
Igrejas formam músicos
Além da Congregação Cristã, outras denominações também têm papel relevante na formação musical. A Assembleia de Deus, maior igreja evangélica do país, também contribui para a formação de instrumentistas e cantores.
A violinista Otielen Luz, integrante da Orquestra Jovem Tom Jobim, começou sua trajetória musical na Assembleia de Deus aos sete anos.
Ela afirma que o repertório da igreja foi um desafio importante no início de sua formação.
Hoje, além de tocar profissionalmente, Otielen continua ligada à igreja, onde rege um coral de jovens adultos em Osasco.
Regras musicais
Apesar de ambas incentivarem a música, existem diferenças nas práticas adotadas pelas denominações.
Na Assembleia de Deus, os músicos têm maior liberdade para rearranjar hinos e mulheres podem tocar diversos instrumentos.
Já na Congregação Cristã, as mulheres normalmente são designadas para tocar órgão, enquanto os demais instrumentos ficam majoritariamente com os homens.
Essa divisão tem impacto no equilíbrio de gênero das orquestras profissionais. Na Ojesp, por exemplo, as mulheres representam cerca de 22% dos bolsistas.
Desafios e adaptações
O maestro Cláudio Cruz afirma que, ao longo de sua carreira, precisou lidar com situações em que músicos vindos de igrejas recusavam executar determinadas obras por motivos religiosos.
Entre os exemplos citados estão composições como Carmina Burana, de Carl Orff, ou obras inspiradas em tradições afro-brasileiras.
Segundo o maestro, essas situações exigem diálogo e adaptação entre a formação religiosa dos músicos e as exigências do repertório sinfônico.
Educação musical
Outro fator que ajuda a explicar o crescimento de músicos oriundos de igrejas é a expansão de projetos sociais ligados a comunidades evangélicas.
Essas iniciativas oferecem aulas gratuitas de música, artes e outras atividades para crianças e adolescentes.
Entre os exemplos está o Projeto Elikya, ligado à igreja Vitória em Cristo, que atende cerca de mil jovens com oficinas educativas.
A Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, também mantém a Fábrica de Artes, centro cultural que oferece cursos de música, teatro e dança.
No Paraná, o Projeto Dorcas, ligado à Associação Evangélica Cristo Redentor, utiliza a música como ferramenta educativa para milhares de crianças e adolescentes.
Crescimento evangélico
A presença crescente de músicos formados em igrejas também reflete mudanças mais amplas no cenário religioso brasileiro.
Dados do Censo de 2022 mostram que a população que se declara evangélica passou de 21,6% em 2010 para 26,9%. No mesmo período, a proporção de católicos caiu de 65,1% para 56,7%.
Essa transformação demográfica ajuda a explicar por que as igrejas evangélicas se tornaram importantes espaços de formação musical, influenciando cada vez mais o perfil das novas gerações de músicos no país.
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