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Censo 2022 levanta a pergunta: a igreja evangélica precisa de uma nova reforma?

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Censo 2022 levanta a pergunta: a igreja evangélica precisa de uma nova reforma?
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Segundo Lourenço Stelio Rega, eticista e especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa, membro da igreja evangélica, os dados do Censo 2022 oferecem um retrato inquietante do Brasil religioso. Para ele, o país contabiliza 47,4 milhões de evangélicos — 26,9% da população —, percentual abaixo do que se projetava, que girava em torno de 35%. O levantamento também aponta, conforme destaca, a existência de cerca de 580 mil templos, número que supera o total de escolas e hospitais, que somam 511 mil.

Rega observa, no entanto, que faltam dados sobre o trânsito eclesiástico e religioso, incluindo a evasão de membros ou frequentadores de igrejas locais. Para o autor, esse fenômeno poderia representar, entre outros motivos, a busca por uma religiosidade mais pessoal e de resultados.

Diante desse quadro, ele identifica o surgimento de movimentos emergentes que atendem a uma política de demanda, dos quais destaca pelo menos dois:

• Igreja emergente de consumo cultural do entretenimento gospel, que, segundo Rega, busca atender à demanda de uma religiosidade festiva e de um transcendente que venha ao encontro das aspirações dos “buscadores” em uma religiosidade de busca experiencial com Deus. Os cultos, descreve ele, são revestidos de elevada performance ao estilo de uma “aeróbica gospel”.

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• Igreja emergente da busca pela inclusão, que, conforme analisa, lastreia-se nos referenciais da Pós-modernidade centralizados no indivíduo. Neste caso, afirma, a Bíblia precisa ser atualizada para se sincronizar com as demandas atuais, atendendo a uma religião do coração (Schleiermacher), em que o indivíduo é o legitimador de sua experiência, na qual Deus se torna um protagonista.

Para Rega, nesse contexto o relacionamento baseia-se em uma ética de consenso em vez de uma ética bíblica. Ele aponta que há espaço para a homossexualidade, alternativas matrimoniais e mesmo o aborto, ou outra demanda ética que a vontade do indivíduo venha a indicar, com um tempero religioso de um herói Jesus histórico, que nada tem a ver com o Jesus do Novo Testamento. Em todos esses movimentos, ressalta, o ponto central é o atendimento da demanda do fiel.

E as denominações históricas, onde estão? Rega reflete que muitas se institucionalizaram e é possível que estejam se tornando entrópicas, cumprindo seus programas e agendas e mantendo seu “giro operacional” dominical. Ele recorda ter ouvido, em uma classe de teologia, que, nesse caso, talvez estejam respondendo a perguntas que já não existem mais. Sua expectativa é de que líderes estratégicos nesses grupos encontrem novos caminhos, aproveitando a história já vivida.

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O autor também observa o surgimento de um discurso político “semantizado”, que vai se tingindo com a agenda e a terminologia dos valores bíblicos, criando militâncias que se localizam em extremos de uma espécie de “fita métrica” ideológica, especialmente a partir da última eleição presidencial. Para ele, o que se tem notado é uma intensa divisão, alcançando inclusive o relacionamento entre pastores, famílias e amigos, com a intensificação de um senso de vigilância e certo “policiamento”, de modo que quem pensa diferente pode ser “cancelado” e “bloqueado”.

Rega confessa que às vezes se pergunta se estamos “anestesiados” diante de um país em decadência moral, cada dia mais caótico, secularizado, corrompido e inseguro, em que donos do poder e o poder de donos se tornam a lei reguladora da vida nacional.

Para ele, talvez por estarmos vivendo uma espécie de ocupacionismo dominical provocado pelo pragmatismo-funcional e pelo salvacionismo escatológico, possamos estar tornando o espaço evangélico cada dia mais entrópico e desinteressado nesse cenário nacional, alimentando a esperança escatológica da urgente volta de Jesus.

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O autor então provoca: será que o que ocorreu com a igreja alemã diante do nazismo não nos ajuda a compreender o papel da igreja em relação ao mundo em sua missão de presença e seu papel profético, que vá além da missão da proclamação?

Rega ainda aponta que a dicotomia clero-laicato, em alguns círculos, está se fortalecendo, e pastorear, para alguns, tem se tornado mais um assunto de empregabilidade do que cuidar de gente. Ele questiona: se no passado falava-se que o catolicismo no país era nominal, hoje os evangélicos não estariam indo para o mesmo caminho?

Por fim, o autor remete ao leitor a pergunta inicial: precisamos ou não de uma nova reforma na igreja evangélica de hoje? Com: Comunhão.

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