estudos bíblicos
‘Fascínio’ por demônios é desvio da Bíblia, diz NT Wright
O teólogo N.T. Wright afirmou, em um episódio recente do programa Ask Me Anything, que o período de pregação de Jesus antes da crucificação não criou uma ação demoníaca, mas expôs forças espirituais que já existiam. Wright também alertou cristãos contra dois extremos, a negação do mal espiritual e a fixação doentia nele.
Wright, de 77 anos, respondeu a uma pergunta sobre se a chegada de Jesus teria desencadeado uma aparente onda de atividade demoníaca no Novo Testamento. Ele disse que os Evangelhos apresentam a proclamação do Reino de Deus como um momento em que forças ocultas foram confrontadas de forma pública. “Quando Jesus chega à Galileia e começa a dizer: ‘O Reino de Deus está próximo’, é como se, de repente, todos os móveis começassem a voar pela sala”, afirmou, ao comentar relatos de confrontos e exorcismos. “Os poderes das trevas percebem que, se Ele fizer tudo o que parece que vai fazer, então estaremos em grandes apuros”.
Wright declarou que as forças demoníacas não estavam ausentes antes do nascimento de Jesus e que não eram desconhecidas no judaísmo do primeiro século. Ele disse que “a maioria dos judeus praticantes da época sabia que era possível orar por libertação e realizar exorcismos caso alguém estivesse gravemente afligido”, ao mencionar referências na literatura judaica e o reconhecimento de Jesus de que exorcistas já existiam na comunidade.
Nos Evangelhos, opositores de Jesus o acusam de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, e Wright afirmou que essa acusação se encaixa em um contexto cultural em que o sofrimento espiritual já era reconhecido. “Nesse momento, as forças das trevas, ao verem que o Reino de Deus está sendo anunciado, percebem que estarão em sérios apuros”, disse. “E a resposta é sim, estarão”.
Ao tratar do tema, Wright rejeitou uma visão dualista que coloca o mal como uma força equivalente e oposta a Deus. “Precisamos nos livrar da ideia de que Deus está de um lado da página e Satanás do outro, presos em uma luta sem fim”, declarou. “Essa não é a imagem bíblica”.
Com base na discussão do apóstolo Paulo sobre ídolos e demônios em 1 Coríntios, Wright disse que as Escrituras reconhecem a existência de “forças das trevas não humanas” que buscam distorcer e degradar a criação de Deus. Ele afirmou que essas forças agem com frequência por meio de sistemas e comportamentos que reduzem a dignidade humana. “Essas forças não são os ‘verdadeiros deuses’”, disse. “Mas elas buscam corromper a criação de Deus e destruí-la”.
Wright declarou que o ceticismo moderno no Ocidente em relação ao mal espiritual não o eliminou e citou tragédias em larga escala do século XX para sustentar que o mal pode operar além das intenções individuais. “Quando populações inteiras são dominadas por mentiras e cometem atrocidades graves como consequência, percebe-se que o mal envolvido é muito maior do que a soma das ações de um punhado de pessoas más no poder”, afirmou.
Ele disse que esse reconhecimento não deve levar cristãos ao medo, à fascinação ou à busca por experiências espirituais dramáticas. “É bom estar atento à textura espiritual do mundo”, afirmou. “Mas sempre existe o perigo de querer encontrar o demoníaco em cada canto”.
Wright demonstrou preocupação com ensinamentos que incentivam cristãos a buscar visões ou a se tornar “videntes”. “Isso apenas alimenta um certo fascínio sombrio que devemos evitar a todo custo”, disse.
Ao falar da própria experiência pastoral como bispo, Wright afirmou que alguns ministros são chamados a lidar diretamente com graves aflições espirituais e citou situações em que pessoas foram a uma paróquia ou casa para orações específicas diante do que “parecia ser uma espécie de infestação”. Ele declarou: “Alguns ministros cristãos realmente têm um dom divino de discernimento.” Wright disse que ministros envolvidos nesse tipo de trabalho costumam descrevê-lo como exaustivo e perturbador, e relatou a fala de um deles: “É como limpar banheiros”. Ele acrescentou: “É um mundo confuso e obscuro, envolvendo seres humanos pobres presos em padrões destrutivos”.
Wright afirmou que a vitória decisiva sobre esses poderes está na morte e ressurreição de Cristo, ao mencionar 1 Coríntios 15. “Em sua morte e ressurreição, Jesus conquistou a vitória sobre esses poderes”, disse. “Vivemos entre a vitória inicial e a vitória final.” Ele também declarou: “Jesus entra no próprio coração das trevas para derrotá-las.” “E a ressurreição declara: está feito. Está consumado”.
Wright concluiu que, embora o mal e a perversidade persistam, a vocação da Igreja é testemunhar o Reino inaugurado por Cristo e lidar com episódios de perturbação espiritual com sobriedade. “Há uma espécie de aceleração e publicidade em relação à atividade demoníaca depois que Jesus começou a anunciar o Reino, mas na prática da Igreja ao longo dos anos, a Igreja basicamente sabia que coisas estranhas acontecem, e algumas pessoas precisam ser treinadas para lidar com elas com sabedoria, sem superstição e sem alarde”, afirmou.
Wright também citou um levantamento da Gallup de 2025 e disse que 48% dos adultos nos EUA afirmaram acreditar em cura psíquica ou espiritual, enquanto 39% disseram acreditar em fantasmas. Ele acrescentou que entre 24% e 29% declararam crer em outros seis fenômenos sobrenaturais, incluindo telepatia, comunicação com os mortos, clarividência, astrologia, reencarnação e bruxaria.
Ao abordar o tema da “guerra espiritual”, Wright afirmou, em 2025, que o conceito foi distorcido no cristianismo popular. Ele citou Efésios 6, com a imagem da “armadura de Deus”, e colocou esse texto ao lado de Efésios 1 e 2, que descrevem os crentes como já “assentados nos lugares celestiais em Cristo”. “Os lugares celestiais são onde a batalha está acontecendo agora. Deus venceu a batalha em Jesus”, disse. Ele afirmou que a armadura é quase toda defensiva, “exceto pela espada do Espírito”.
Wright também disse que a luta descrita por Paulo não se direciona a pessoas e grupos, e criticou leituras que transformam adversários humanos em alvo da batalha espiritual. “Paulo, assim como o próprio Jesus, diz… nossa luta não é contra carne e sangue… Se você pensa que pode travar essa batalha lutando contra pessoas, grupos ou etnias específicos, então isso em si se torna parte do problema demoníaco, em vez da solução cristã”, afirmou.
Ele voltou a alertar contra os dois extremos e citou C.S. Lewis: “Existem dois erros iguais e opostos. Por um lado, as pessoas que dizem que tudo isso não passa de bobagem medieval. Por outro lado, as pessoas que veem demônios em cada esquina”, disse.
Ao relembrar o período como bispo de Durham, Wright afirmou que supervisionou um ministério discreto de libertação voltado a casos que descreveu como genuínos. “Eles rezavam com as vítimas e faziam o que você poderia chamar, com cautela, de exorcismo”, disse. “É simplesmente muito desagradável, sujo, confuso… e você acaba sentindo muita pena das pessoas que se veem envolvidas nisso”.
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