Siga-nos!

capa

Crianças cristãs podem comer doces de Cosme e Damião? Pastores respondem

Avatar

em

Crianças cristãs podem comer doces de Cosme e Damião? Pastores respondem
ADVERTISEMENT

No próximo domingo (27), crianças de diversas regiões do Brasil poderão receber os tradicionais saquinhos de balas, doces e brinquedos ligados ao Dia de Cosme e Damião. Para famílias evangélicas, a data costuma suscitar uma dúvida: uma criança cristã pode consumir esses doces ou deve recusá-los por estarem associados a uma tradição religiosa?

A resposta exige mais do que classificar a bala como “boa” ou “ruim”. É necessário compreender a origem da celebração, o significado religioso atribuído a ela em diferentes tradições e, sobretudo, o que a Bíblia ensina sobre alimentos relacionados à idolatria.

No Novo Testamento, o tema aparece de forma clara em 1 Coríntios 8. O apóstolo Paulo foi questionado pelos cristãos de Corinto justamente sobre alimentos oferecidos a ídolos. Ele afirma que “o ídolo nada é no mundo” e que existe um só Deus, mas também chama atenção para a consciência dos cristãos e para o risco de transformar a liberdade em motivo de tropeço para outra pessoa.

A interpretação pastoral

ADVERTISEMENT

É nesse texto que o pastor batista Heleénder de Oliveira Francisco fundamenta sua análise. Para ele, quem come um doce sem saber sua procedência religiosa não deve ser tratado como alguém que, por isso, passou a participar de um culto. O ponto central, segundo sua interpretação de Paulo, está na consciência e na intenção.

“Em relação ao alimento sacrificado aos ídolos, sabemos que o ídolo não significa nada no mundo e que só existe um Deus”, explica o pastor, recorrendo a 1 Coríntios 8. Para ele, “quem come tais doces, sem nenhum conhecimento de sua procedência, não atrai sobre si mal nenhum”, porque a comida, isoladamente, não estabelece uma relação espiritual automática com a pessoa.

A própria passagem bíblica afirma que “a comida não nos torna aceitáveis diante de Deus” e que o cristão não se torna melhor ou pior simplesmente por comer ou deixar de comer. Ao mesmo tempo, Paulo estabelece uma segunda preocupação: a liberdade cristã não deve se transformar em pedra de tropeço para outro irmão.

ADVERTISEMENT

“O problema está no doce?”

O pastor Erasmo Maia Vieira segue linha semelhante. Para ele, não há fundamento bíblico para atribuir aos doces, enquanto alimento, uma espécie de poder mágico ou espiritual capaz de causar automaticamente algum mal a quem os consome. “Fisicamente, os doces não fazem nenhum estrago, a não ser que estejam contaminados. Não acho também que esses doces tenham algo de encantamento ou mágica que venha comprometer a quem o comer”, afirma.

A questão, segundo Erasmo, é outra: o que aquele alimento representa e qual é a atitude de quem o recebe ou consome. Ele entende que a Bíblia direciona a atenção do cristão para a idolatria, e não para uma suposta propriedade espiritual da comida.

ADVERTISEMENT

Esse ponto é importante porque impede dois extremos. De um lado, está a ideia de que uma bala distribuída na rua carregaria automaticamente algum poder espiritual. De outro, está a conclusão de que, por ser apenas um doce, toda a dimensão religiosa da prática pode ser ignorada.

Paulo trata justamente dessa tensão. Em 1 Coríntios 8, ele reconhece que o alimento não possui poder para aproximar ou afastar alguém de Deus, mas alerta que determinada atitude pode ferir a consciência de outro cristão. Por isso, chega a dizer que abriria mão de comer carne se isso levasse um irmão a tropeçar.

Quem foram Cosme e Damião?

ADVERTISEMENT

Para entender a controvérsia, é necessário conhecer os personagens que deram nome à tradição. Cosme e Damião são apresentados pela tradição cristã como irmãos gêmeos e médicos que viveram por volta do século III, em território do Império Romano. A tradição católica afirma que eles exerciam a medicina sem cobrar pelos atendimentos e que foram martirizados durante as perseguições contra os cristãos.

Há, porém, uma ressalva histórica importante: os detalhes de suas vidas são conhecidos principalmente por tradições e relatos posteriores, e alguns episódios assumiram caráter lendário. Fontes católicas reconhecem que existem poucos dados históricos seguros sobre os dois irmãos.

Na tradição católica atual, a memória litúrgica dos santos é celebrada em 26 de setembro. A associação popular brasileira com o dia 27 tem raízes históricas em calendários e tradições anteriores e, no Brasil, consolidou-se junto a manifestações populares e de religiões de matriz africana. Os dois são tradicionalmente associados à medicina e ao cuidado dos enfermos — trajetória que ajuda a explicar sua popularidade histórica.

ADVERTISEMENT

De onde vêm os doces?

A distribuição de balas e doces não representa, de forma simples, a reprodução da história dos dois médicos cristãos. No Brasil, a tradição ganhou características próprias e passou a estar profundamente relacionada ao sincretismo religioso.

Em religiões de matriz africana, especialmente em tradições ligadas ao Candomblé e à Umbanda, Cosme e Damião foram associados aos Ibejis, figuras gêmeas ligadas à infância. O Museu Paraense Emílio Goeldi, em material sobre cultura afro-amazônica, registra a associação entre Ibeji e os santos Cosme e Damião, explicando que esse processo ocorreu em um contexto histórico no qual africanos escravizados sofreram restrições à prática de suas religiões.

ADVERTISEMENT

Em diferentes comunidades, a celebração envolve doces, brinquedos, comidas e festas para crianças. Há também tradições de caruru e outras comidas oferecidas em homenagem às entidades relacionadas à celebração. Registros culturais oficiais descrevem essa mistura entre elementos católicos e de matriz africana como uma das características da festa brasileira.

Isso significa que a bala entregue na rua pode ter significados diferentes conforme quem a oferece. Para algumas pessoas, é uma tradição cultural. Para outras, está inserida em uma prática religiosa. Em determinadas celebrações de Umbanda e Candomblé, os doces fazem parte de uma relação religiosa específica com os Ibejis.

Por isso, dizer simplesmente que “toda bala de Cosme e Damião é amaldiçoada” não encontra respaldo no texto bíblico de 1 Coríntios 8. Também seria impreciso afirmar que a origem religiosa não importa. Ela importa justamente porque o cristão precisa saber o que determinada prática representa antes de decidir como agir.

ADVERTISEMENT

Medo ou consciência bíblica?

É nesse ponto que a orientação aos pais ganha importância. Para o pastor Marcos Menegone, os pais precisam ensinar os filhos sobre a origem das práticas religiosas e ajudá-los a desenvolver discernimento. Ele cita Provérbios 22:6: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele”. Também recorre às palavras de Jesus em Mateus 4:10: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele darás culto”.

A preocupação, portanto, não deve ser construída em torno de uma narrativa de terror. Uma criança que come uma bala sem conhecer sua origem não precisa ser ensinada a imaginar que recebeu algum tipo de maldição. O discipulado cristão pode seguir outro caminho: explicar que aquela distribuição está relacionada a uma tradição religiosa que não corresponde à fé da família.

ADVERTISEMENT

Erasmo Vieira defende que o assunto seja tratado com naturalidade dentro de casa. Segundo ele, crianças pequenas nem sempre conseguem compreender conceitos religiosos complexos, e os pais podem oferecer alternativas, como doces comprados pela própria família, enquanto explicam de maneira apropriada à idade por que não participam daquela tradição.

A questão também passa pelo respeito ao próximo. A existência de diferenças religiosas não autoriza o cristão a demonizar pessoas de outras crenças. O próprio contexto brasileiro mostra que a celebração de Cosme e Damião está associada a diferentes tradições e práticas culturais. Registros de instituições públicas também chamam atenção para a necessidade de combater a intolerância religiosa em torno da data.

E se a criança já comeu?

Para Heleénder, não há motivo para transformar o episódio em pânico espiritual. Se uma criança recebeu uma bala e a comeu sem saber que havia uma relação religiosa por trás daquela distribuição, não há base, em 1 Coríntios 8, para afirmar que ela tenha sido espiritualmente contaminada simplesmente pelo alimento.

O pastor destaca, entretanto, que novos convertidos ou pessoas que tiveram experiências anteriores com outras religiões podem precisar de um cuidado diferente. Nesses casos, a orientação deve considerar a consciência individual, a história espiritual da pessoa e o processo de discipulado.

A mesma passagem de Paulo mostra que maturidade cristã não significa apenas conhecer uma regra, mas compreender como a liberdade deve ser exercida. O apóstolo não transforma a comida em objeto de medo, mas também não trata a consciência e o testemunho como questões irrelevantes.

O que ensinar aos filhos?

A orientação pastoral converge em um ponto: a criança precisa receber conhecimento, não apenas proibição. Em vez de dizer que o doce “tem algo ruim dentro”, os pais podem explicar que existem pessoas que celebram Cosme e Damião dentro de determinadas tradições religiosas e que a família cristã não participa daquela devoção. A criança pode aprender a recusar educadamente, sem ridicularizar quem oferece.

Também é possível explicar que o cristão não precisa ter medo de uma bala, mas deve compreender aquilo que sua fé ensina sobre idolatria. A Bíblia afirma que há um único Deus e chama seus seguidores a adorá-lo exclusivamente. Ao mesmo tempo, 1 Coríntios 8 mostra que o cristão deve agir com amor e consideração pela consciência dos outros.

Para Erasmo Vieira, a resposta não está em transformar a data em uma batalha religiosa. Ele defende que a igreja aproveite essas ocasiões para ensinar a fé de maneira positiva, apresentando às crianças os valores e as práticas do cristianismo. Heleénder segue na mesma direção ao afirmar que os pais devem explicar aos filhos que determinadas festas possuem origem religiosa e que, por não estarem alinhadas às convicções da família, eles podem optar por não participar.

No fim, a pergunta “pode ou não pode comer?” talvez seja pequena demais para o problema que a Bíblia apresenta. A questão maior é o que a criança está aprendendo sobre Deus, idolatria, liberdade, consciência e respeito ao próximo.

O cristão não precisa transformar uma bala em objeto de medo. Também não precisa ignorar o significado religioso que aquela prática possui para outras pessoas. O caminho bíblico apresentado pelos pastores ouvidos para esta reportagem passa pelo conhecimento, pela formação dos filhos, pela fidelidade às próprias convicções e pelo cuidado para não transformar diferenças religiosas em intolerância.

Como lembra Paulo, a liberdade cristã não deve ser usada para ferir a consciência de outro irmão. E, como ensina Marcos Menegone, a Palavra de Deus deve ser a referência para a formação dos filhos. No equilíbrio entre esses princípios está uma resposta mais madura para uma dúvida que, todos os anos, reaparece nas famílias cristãs.

Como orientar a criança sobre os doces de Cosme e Damião

  1. Explique a origem — Conte, de acordo com a idade, que Cosme e Damião são personagens venerados por tradições religiosas diferentes e que a distribuição de doces faz parte de determinadas celebrações.

  2. Não transforme a bala em objeto de medo — 1 Coríntios 8 não apresenta o alimento como portador automático de poder espiritual. Paulo desloca a discussão para idolatria, consciência e relacionamento com outros cristãos.

  3. Ensine o que a família acredita — A criança precisa saber por que a família evangélica não participa de determinada prática. Proibição sem explicação pode produzir apenas medo ou curiosidade.

  4. Diferencie alimento de culto — Uma coisa é o doce como alimento. Outra é participar conscientemente de uma prática religiosa. A distinção é importante para compreender o princípio de 1 Coríntios 8.

  5. Ensine a criança a dizer “não” com respeito — Ela pode agradecer e explicar que não vai aceitar, sem ofender quem está oferecendo.

  6. Se ela comeu sem saber, não entre em pânico — A orientação pastoral apresentada nesta reportagem entende que o consumo involuntário ou sem conhecimento da origem religiosa do alimento não significa automaticamente participação em um culto.

  7. Cuidado com a consciência dos outros — Paulo afirma que a liberdade cristã não deve se tornar pedra de tropeço.

  8. Converse sobre idolatria — Textos como Êxodo 20:3-5, Mateus 4:10, 1 Coríntios 8 e 1 Coríntios 10 podem servir como base para uma conversa familiar sobre adoração e fidelidade a Deus.

  9. Não demonize outras religiões — É possível ensinar às crianças que uma prática não pertence à fé da família sem ensinar que as pessoas que praticam outra religião são inimigas ou inferiores.

  10. Troque o medo por discipulado — A melhor resposta dos pais não é criar uma criança assustada com doces, mas uma criança que entende em quem crê, por que crê e como deve tratar quem pensa diferente. Com: Comunhão.

Trending