ciência & tecnologia
Estudo mostra que a fé segue presente mesmo entre usuários de drogas
A associação entre a situação de miséria dos usuários de drogas que vivem nas ruas e uma suposta “falta de fé” é uma ideia recorrente no senso comum. No entanto, uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP) contraria essa percepção: constatou-se que a religiosidade se manteve presente ao longo do período de consumo de drogas e, em determinados casos, chegou até a se fortalecer.
Para compreender de que maneira a fé se manifesta nas trajetórias de consumo e dependência, o estudo entrevistou 40 pessoas no Brasil e em Portugal. Os achados colocam em xeque a noção popular de que quem lida com a dependência química necessariamente vivencia uma “falta de Deus”.
Do total de 20 brasileiros ouvidos, oito se declararam evangélicos, o que corresponde a 40% desse grupo. Já entre os portugueses, a maioria era católica, representando metade dos participantes, enquanto oito indivíduos, também 40%, afirmaram não professar nenhuma religião.
A relação de parte dos entrevistados com as instituições religiosas também mereceu destaque. Alguns relataram desconforto ou a sensação de não serem aceitos em espaços como igrejas e cultos. Além disso, os brasileiros, inseridos em um modelo de tratamento orientado à abstinência, manifestaram sentimentos de culpa quando não avançavam conforme o esperado. Os portugueses, por sua vez, acompanhados em um contexto de redução de danos, tendiam a questionar com mais frequência os métodos de tratamento propostos.
Um dos conceitos centrais identificados pelos pesquisadores é o de “proteção subjetiva”, que descreve a sensação de estar resguardado por Deus ou por outra divindade frente aos riscos e às adversidades. Conforme os relatos, a fé proporcionava amparo emocional e a percepção de que os participantes não estavam sozinhos.
Para quem enfrentava a dependência química e vivia nas ruas, essa crença podia se converter em fonte de esperança em meio à insegurança do cotidiano.
Os pesquisadores, contudo, também observaram uma possível contradição: em certas situações, a confiança na proteção divina parecia levar alguns participantes a se exporem a riscos ligados ao consumo.
Durante as entrevistas, surgiram relatos de pessoas que acreditavam estar protegidas contra overdose ou doenças, mesmo ao compartilhar objetos utilizados no uso de drogas.
A pesquisa igualmente contesta a ideia de que a religiosidade se dissipa quando alguém desenvolve problemas com drogas. Ao contrário, os relatos indicam que a fé pode permanecer presente, inclusive em períodos de consumo intenso.
Ademais, a espiritualidade pode desempenhar funções diversas, como oferecer consolo, auxiliar no enfrentamento do sofrimento ou sinalizar o desejo de mudar de vida. Por essa razão, os pesquisadores defendem uma compreensão mais cuidadosa das experiências individuais.
O trabalho integra a pesquisa de doutorado da psicóloga Camila Chagas, vinculada ao Instituto de Psicologia da USP. Por meio de entrevistas semiestruturadas, ela investigou as experiências religiosas dos participantes, suas histórias de vida e a relação com o consumo de substâncias.
O tema ganha relevância diante da dimensão da população em situação de rua no país. Em maio de 2026, o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) registrava 388.855 pessoas nessa condição, conforme levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Esse número supera os 327.925 cadastros de dezembro de 2024 e os 365.822 de dezembro de 2025. A Região Sudeste concentrava cerca de 61% dos registros nacionais, com São Paulo liderando o ranking estadual (159.290 pessoas), seguido pelo Rio de Janeiro (35.406) e por Minas Gerais (34.849). Tais dados evidenciam a magnitude dos desafios relativos à moradia, à assistência social e ao acesso aos serviços de saúde.
A pesquisa também ressalta a importância de não equiparar todo consumo de drogas a dependência. Segundo a pesquisadora, o transtorno por uso de substâncias envolve prejuízos em diferentes áreas da vida, e cada trajetória precisa ser compreendida de maneira individual.
Além disso, situações de rua podem estar associadas a distintas experiências de sofrimento e exclusão, que não se explicam por um único fator.
Nas entrevistas, a pesquisadora identificou relatos de violência sexual e sofrimento desde a infância, especialmente em algumas trajetórias das mulheres brasileiras. Esses depoimentos reforçam a importância de considerar o histórico pessoal e social de quem enfrenta a dependência.
Portanto, respostas fundamentadas apenas na condenação moral ou na suposição de falta de fé podem desconsiderar aspectos importantes da realidade dessas pessoas.
O artigo científico decorrente da pesquisa foi publicado na revista Nursing & Health Sciences, com o título Walking Together: A Cross-Cultural Study of the Relationship Between Religiosity and Substance Use Disorder. Embora o estudo tenha envolvido apenas 40 participantes, ele contribui para ampliar o debate sobre fé, dependência química e situação de rua.
Para as comunidades cristãs, a principal reflexão é reconhecer que pessoas que enfrentam problemas com drogas também podem ter uma vida religiosa ativa. Acolher essa população significa, portanto, ir além dos estigmas e oferecer apoio sem transformar o sofrimento em prova de ausência de fé.
Entre as iniciativas voluntárias de igrejas junto a moradores de rua, o Grupo Salvos para Evangelizar e Restaurar (SER), formado por membros de igrejas evangélicas de Estiva (MG), realizou em 26 de dezembro uma ação social em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, distribuindo mais de 100 marmitas para pessoas em situação de rua e unindo assistência alimentar a apoio espiritual, com orações e mensagens de esperança.
O Anjos da Madrugada, projeto da Igreja Universal presente em todo o Brasil, visita praças e outros locais frequentados por moradores de rua, distribuindo refeições e kits de higiene pessoal, além de oferecer corte de cabelo, manicure e, quando possível, banho.
Na capital paulista, a Assembleia de Deus – Ministério Vale das Virtudes mantém um projeto permanente de distribuição semanal de marmitas e sopas na Praça do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, voltado à população em situação de rua, que além da alimentação recebe acolhimento, orientação e encaminhamentos para casas de recuperação conforme a necessidade dos atendidos.
Criada a partir da iniciativa de membros ligados a uma igreja batista em São Paulo, a ONG SP Invisível atua para dar visibilidade à população em situação de rua por meio de campanhas, produção de conteúdo e ações de conscientização. Apesar do foco maior em mobilização social e advocacy, o projeto mantém raízes na atuação evangélica e busca sensibilizar a sociedade para a dignidade e os direitos dessa população.
No centro histórico de São Paulo, especialmente em áreas próximas à Cracolândia, o Compassion Ministries desenvolve ação contínua junto a pessoas em situação de rua e dependência química, com visitas regulares, escuta, apoio espiritual e encaminhamentos para grupos de suporte e recuperação, integrando cuidado social e acompanhamento pastoral.
Em Curitiba (PR), o projeto O Bom Samaritano, ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia (Reform Movement), realiza semanalmente a distribuição de sopa e roupas nas ruas da cidade, com foco no acolhimento de pessoas em situação de rua, oferecendo alimentação, agasalhos e atenção humanizada, aliando solidariedade prática e valores cristãos.
Em Natal (RN), a iniciativa Igreja nas Ruas – Missão Urbana atua de forma contínua junto à população em situação de rua, oferecendo refeições, apoio básico, momentos de oração e evangelização, além de encaminhamentos para assistência social e recuperação, buscando responder às necessidades imediatas e promover cuidado integral aos atendidos.
Sob o Viaduto da Conceição, no centro da capital paulista, a missão Sul, Missões e Graça (SMG) realiza cultos ao ar livre voltados à população em situação de vulnerabilidade, reunindo equipe interdenominacional de voluntários que promove louvor, pregação do Evangelho de Jesus Cristo e oração. Além do suporte espiritual, o projeto oferece assistência prática, com distribuição de refeições, roupas, cobertores e barracas para pessoas que vivem nas ruas.
Localizada no bairro da Penha, em São Paulo, a Igreja Marca de Cristo promove encontros semanais direcionados especialmente a pessoas em situação de rua e usuários de drogas. Conhecida como a “Igreja da Meia-Noite”, destaca-se pelo acolhimento espiritual e social, oferecendo mensagens bíblicas, refeições, apoio emocional e, em alguns casos, abrigo temporário, tendo mobilizado voluntários e ganhado repercussão nas redes sociais pela proposta de cuidado integral.
Em Belo Horizonte (MG), o projeto Marmitando com Amor promove semanalmente a distribuição de cerca de 150 marmitas, além de água mineral e sobremesa, na região conhecida como zona hospitalar. A iniciativa conta com aproximadamente 30 voluntários fixos e tem as refeições preparadas por membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, no bairro Funcionários, com mobilização aos sábados, unindo solidariedade, serviço e atenção às pessoas em situação de rua.
Atuando no bairro de Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, o Projeto SER é uma ação comunitária que atende todas as quintas-feiras cerca de 200 pessoas em situação de vulnerabilidade social. Das 14h às 19h, são distribuídas marmitas com alimentos nutritivos e, antes das refeições, os participantes são convidados a um momento de reflexão e estudo bíblico, reforçando o caráter espiritual e social da iniciativa.
Em Porto Alegre (RS), a Casa de Passagem Tchê Protege é fruto de parceria entre a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) e a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc). Com funcionamento 24 horas, o espaço tem capacidade para acolher até 50 homens, com atendimento integral realizado pelas equipes das duas instituições. Com: Comunhão.
-
capa2 dias atrásMP recomenda que escola em Cuiabá encerre orações como atividade oficial
-
capa2 dias atrásNikolas Ferreira não reconhece vitória de Lula e contesta prorrogação de votação
-
capa2 dias atrásDecisão inédita do STF prolonga votação em todo o país e Flávio não reconhece resultado
-
igreja20 horas atrásLula terá a menor base aliada de seus quatro mandatos, aponta Diap
-
igreja2 dias atrásVitória contestada de Lula provoca terremoto no mercado: real despenca 10%
-
brasil23 horas atrásGazeta do Povo classifica apreensão do passaporte de Flávio como “vingança pura”
-
capa20 horas atrásPara especialista, usar IA para preparar pregações é um risco aos pastores
-
igreja20 horas atrásAtaques contra cristãos na Etiópia deixam mais de 60 mortos
-
cosmovisão19 horas atrásPastor apresenta “segunda esposa” à congregação e defende poligamia
-
igreja19 horas atrásAtaque a tiros em igreja deixa pelo menos sete mortos e 40 feridos
-
brasil54 minutos atrásPF estuda bloquear bens de Flávio Bolsonaro para forçar retorno ao Brasil
-
igreja19 minutos atrásSobrinho de Dilma Rousseff quer a apreensão do passaporte de Nikolas Ferreira