opinião
Eu vi a droga da fome!
“A fome é uma coisa muito louca”.
O dia estava clareando, uma seis e meia da manhã. Protegido dentro do carro, eu acompanhava os movimentos da cidade lá fora, fugindo da chuva forte. Quando parei no sinal vermelho, ele surgiu à minha frente. Alto, magro, maltrapilho, sujo, descabelado, feio.
Cara de bravo, aquele fantasma se aproximou sem abrir a boca, sem fazer qualquer gesto. Parou diante do carro e, olhando dentro dos meus olhos, levantou um pedaço de madeira que improvisava um cartaz com a seguinte frase: “ESTOU COMENDO COMIDA DO LIXO”.
Os carros aceleravam, a chuva apertava e ele lá, parado, me olhando fixamente. Eu estava paralisado. Aquilo que parecia a fotografia animada de uma sombra se mexeu, virou o cartaz e exibiu uma nova mensagem: “A FOME É UMA COISA MUITO LOUCA”.
“Muito louco, esse moço deve estar muito louco.” Isso era o que eu tinha pensado, num primeiro momento, quando vi aquele homem em degradação se aproximar do carro que eu dirigia. Naquele dia, porém, sob a chuva insistente, esse homem usou da língua dos letrados que falamos para me contar de que tipo de loucura ele sofria.
Ele estava louco, sim, mas não o tipo de loucura a que facilmente recorremos para carimbar, com a mesmíssima marca, aqueles que vagam nas ruas e se aproximam de nós com algum pedido, uma súplica. Ele estava drogado, muito drogado. A droga que matava aquele homem na frente de todo mundo era a FOME.
A triste imagem, que surgiu à minha frente, está na rotina de cada um de nós. Não nos cabe julgar por que razão a fome vitimara aquele homem. Cabe a nós trabalhar pela sua reconquista para a vida, encontrar naquele homem de sombras e dor o mesmo Deus que habita em todos nós.
Temos que nos unir em esforços pela sua inclusão social, com os meios mínimos de alimentação, higiene e equilíbrio, alguma estabilidade para que ele possa novamente buscar seu lugar na sociedade. Mas com verdade e certeza, meus amigos, eu lhes digo que esse caminho será longo e tem uma porta de entrada estreita. É difícil, mas é o único caminho que nos conduz à vida plena, o caminho da fé.
Se não por qualquer outro motivo, precisamos agir pela salvação daquele que suplica porque ele nos traz também um pedido do Senhor.
É o que nos diz claramente em Matheus 25;37-40:
“Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber?
E quanto te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e formos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.
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