opinião
Muita farofa e pouca carne: igrejas festeiras não doutrinadas
A alegria, o poder e o avivamento que se diz estarem sendo experimentados em nossas reuniões festivas têm se traduzido em mais anseio pela presença e pelo conhecimento do Senhor quando as festas se acabam?
Ninguém nega que o povo de Deus seja um povo “festeiro” ou festivo, isto é, gostamos muito de encontros de celebração e confraternização.
Isso não é novidade: desde os tempos do Antigo Testamento, vê-se grandes festas, como Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (instituídas pelo próprio Senhor), nas quais imensas multidões se apinhavam na cidade santa para celebrar ao Senhor.
Nessas festas religiosas, costumavam se congregar em Jerusalém gentes vindas das mais diversas partes do mundo, que não compareciam corriqueiramente ao grande templo.
Os judeus sabiam fazer festas pujantes, com muita música, danças, orações, estudos da Lei e, não podemos esquecer, muitos sacrifícios oferecidos a Deus e dos quais o próprio povo podia se alimentar em alguns casos. Eram festas religiosas com grandes banquetes, e que costumavam se prolongar por dias e até semanas!
Em escala muito menor, os cristãos do primeiro século também realizavam suas festas de celebração. Engana-se quem pensa que a igreja primitiva vivia só de perseguição e martírio.
Judas, irmão de Jesus, fala em sua carta de “festas de amor”, nas quais os irmãos se banqueteavam (embora houvessem os falsos cristãos no meio deles, se aproveitando dessas reuniões festivas – Jd v. 12). A igreja primitiva orava, evangelizava e temia a Deus, mas também “repartia o pão” em seus encontros semanais (At 2.42).
Na parábola do “filho pródigo”, o pai que recebe seu filho de volta proclama um grande banquete: “trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos” (Lc 15.23); e todos sabemos que o primeiro milagre de Jesus foi numa grande festa de casamento (Jo 2.1ss).
Faço essas considerações apenas para dizer que não é pecado a igreja hoje realizar festas e confraternizações, nem sou eu inimigo de cultos festivos nos quais congregamos um público maior do que aquele rotineiro. Por graça de Deus tenho ministrado com muita frequência em congressos, retiros e festividades de adolescentes, jovens, senhoras, lideranças e de igrejas em geral.
A grande questão é: tem esse mesmo entusiasmo estado presente na igreja noutros trabalhos igualmente importantes e vitais para a saúde espiritual do povo do Senhor, como reuniões de oração, cultos de ensino e atividades evangelísticas?
A alegria, o poder e o avivamento que se diz estarem sendo experimentados em nossas reuniões festivas têm se traduzido em mais anseio pela presença e pelo conhecimento do Senhor quando as festas se acabam?
A Escola Bíblica Dominical, em minha opinião, é um bom termômetro para a saúde espiritual da igreja.
Ainda que uma grande frequência à EBD não seja em si mesma definidora da real posição da igreja diante de Deus (lembremo-nos da igreja de Éfeso, que era bem doutrinada, porém, faltava-lhe “o primeiro amor” – Ap 2.1-7), é possível a partir deste termômetro percebermos o apreço que a igreja tem pela Palavra de Deus e pelo Deus da Palavra, que nela se faz conhecido e que nela espera ser buscado pelos seus filhos.
Será que somos igrejas “calorosas” ou, para usar um termo bíblico, fervorosas na Palavra? Ou a temperatura só esquenta quando em meio às festividades anuais?
Estão de parabéns aquelas igrejas que realizam suas festividades e confraternizações, mas que igualmente sentem-se motivadas para o estudo regular das Escrituras Sagradas e valorizam cultos e trabalhos de instrução bíblica e teológica!
Tenho conhecido pessoalmente algumas igrejas, e ouvido falar de algumas outras, nas quais a frequência regular de alunos e professores à Escola Dominical chegam aos 70% ou 80% da membresia da igreja. Igrejas de pequeno e médio porte com 80 a 120 pessoas presentes dominicalmente. Não é o ideal, mas é um ótimo começo.
Por outro lado, é lamentável a situação daquelas igrejas que lotam no sábado de festa, mas encontram-se vazias na manhã do domingo seguinte! Como podem conjuntos de jovens com 30 a 60 componentes não conseguirem formar uma classe sequer com metade desse número na EBD? Há professores dando aula “para o vento” em muitas igrejas.
Em grande parte, por descaso da direção da igreja (tragicamente há muitos pastores “movimenteiros” que não gostam de estudar a Bíblia, e tal postura se reflete nas igrejas por eles liderados), e também por desleixo dos líderes de jovens, muitos dos quais são ávidos por festas, mas vagarosos para o ensino, a oração e a evangelização.
Embora, como já disse, eu não seja contrário às festividades, devo dizer que em muitas delas não é Deus que está sendo glorificado e buscado, mas apenas o encontro social em si e o entretenimento religioso. De tais festas, diz Deus: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas” (Am 5.23).
E diante do descaso para com a oração e o estudo sério da Palavra, algumas igrejas precisam urgentemente atentar para a repreensão de Tiago: “Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza” (Tg 4.9). Há igrejas precisando lamentar e chorar ao invés de fazerem festas e confraternizações!
Tudo tem seu tempo, dizia Salomão (Ec 3.1). Mas por que algumas igrejas nunca encontram tempo para estudar a Bíblia e discipular os crentes na sã doutrina, preparando-os para a santidade, a adoração genuína, o serviço do Senhor e o testemunho público da fé cristã? Reflita cada um.
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