cosmovisão
Perdão e dor: por que a ferida ainda dói mesmo depois de perdoar?
Em artigo de reflexão, o psicanalista clínico Sergio Junger — com mais de oito anos de atuação, pós-graduado em Neuropsicologia, pastor evangélico, com formação superior em Teologia e pós-graduação em Ensino Religioso — aborda uma das questões mais silenciosas da vida cristã: por que a dor persiste mesmo depois de a pessoa perdoar.
Junger parte do ensinamento bíblico para situar o tema. “Jesus ensinou: ‘Perdoai, e sereis perdoados’ (Lucas 6:37). Paulo orienta: ‘Perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo’ (Efésios 4:32). Mas muitos cristãos perguntam em silêncio: se eu realmente perdoei, por que ainda dói?”, escreve.
Segundo o autor, a resposta passa pela distinção entre perdoar e esquecer. “Talvez porque perdoar não seja o mesmo que esquecer. Há uma dimensão espiritual do perdão que o cristão precisa aprender a viver, mas existe também uma dimensão emocional que precisa ser tratada”, afirma. Ele acrescenta que “é nesse ponto que fé e cuidado emocional podem caminhar juntos”.
A ferida e a fé
Junger recorre às Escrituras para mostrar que a dor não é incompatível com a fé. Ele cita o Salmo 27:10 — “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá” — e lembra que “Jesus também conheceu a dor da traição, quando foi entregue por alguém do seu círculo mais próximo (Mateus 26:14-16, 47-50)”. A partir disso, conclui: “Ser ferido não é sinal de ausência de fé. A questão é o que fazemos com a ferida”.
A contribuição da psicanálise
O autor, que também atua como psicanalista, traz a perspectiva clínica para o debate. “Na perspectiva psicanalítica, experiências marcantes não desaparecem simplesmente porque o tempo passou”, escreve. Segundo ele, “rejeições, humilhações, abandonos e traições vividos na infância ou na juventude podem deixar marcas que influenciam a maneira como a pessoa interpreta suas relações no presente”. Junger recorda que “Freud chamou atenção para a importância do inconsciente e para aquilo que não é elaborado poder reaparecer em comportamentos e relacionamentos”.
Dessa compreensão, extrai uma consequência prática: “É por isso que, às vezes, o problema não está somente na pessoa que nos feriu hoje. Uma situação atual pode tocar uma ferida muito mais antiga”. Ele exemplifica: “Alguém pode reagir intensamente a uma correção, a uma autoridade ou a uma discordância porque aquela situação despertou experiências anteriores de humilhação, rejeição ou abandono”.
Reflexos na igreja
Junger observa que esse fenômeno também se manifesta no ambiente eclesiástico. “Um membro pode ter dificuldade de lidar com uma liderança não apenas por aquilo que o líder fez, mas porque sua história pessoal tornou a figura de autoridade um lugar de conflito”, afirma. Na via inversa, “um líder pode carregar marcas de rejeição, humilhação ou traição vividas antes de assumir uma função de liderança”. E acrescenta: “O chamado e a unção são importantes, mas liderar também exige maturidade e preparo”.
Como consequência, o autor adverte que “quando essas histórias não são compreendidas, podem surgir conflitos que parecem apenas espirituais, mas que também possuem uma dimensão emocional”. Por isso, avalia que “não basta dizer ao ferido: ‘Você precisa perdoar'”.
O perdão como processo
Junger não relativiza o mandamento do perdão. Pelo contrário, reafirma-o com base nas Escrituras: “Sim, o perdão faz parte do chamado cristão. Jesus foi claro: ‘Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará’ (Mateus 6:14)”. No entanto, ressalva: “aprender a perdoar pode ser um processo. Não é apenas cumprir uma regra; é permitir que Deus transforme aquilo que ainda nos prende”.
Dessa compreensão, o autor deriva uma orientação prática: “talvez seja necessário orar não somente para conseguir perdoar, mas também para pedir a Deus que cure a memória, reorganize os afetos e nos ajude a não continuar vivendo a partir do que aconteceu”. E acrescenta: “O que não conseguimos resolver sozinhos pode precisar ser colocado diante de Deus em oração e, quando necessário, trabalhado em terapia”.
Conclusão: a cura como caminho
Na parte final do artigo, Junger sintetiza sua posição: “Viver o Evangelho não significa negar a dor. Significa aprender a não permitir que a dor determine quem somos. Perdoar não muda o passado, mas pode mudar nossa relação com ele”. E arremata: “Isso não significa necessariamente que você não perdoou. Pode significar que existe uma história que ainda precisa ser compreendida, tratada e entregue a Deus”.
O artigo encerra com uma frase que resume a tese central do autor: “O perdão abre a porta. A cura, muitas vezes, é o caminho que percorremos depois dela.” Com: Comunhão.
-
capa4 dias atrásJuristas classificam reajuste do Bolsa Família como “desespero eleitoral” de Lula
-
capa5 dias atrásLíderes se unem em apoio a Mendonça, vítima de “tentativa de desmoralização”
-
capa5 dias atrásPai muçulmano toca fogo na própria casa para matar filhas convertidas a Jesus
-
capa5 dias atrásVoto evangélico: autor analisa os impactos e faz alerta quanto à politização
-
capa5 dias atrásManifestação pró-vida contra o aborto reúne milhares de cristãos
-
capa4 dias atrás“Perdi minha religião, mas ganhei minha fé”, diz missionário após seis anos de prisão
-
capa4 dias atrásEUA condicionaram revisão de tarifa a compromisso do Brasil com eleições livres
-
capa4 dias atrásCristão que salvou milhares do Estado Islâmico permanece preso sem motivo formal
-
capa4 dias atrásPastores questionam relação entre ministério pastoral e magistratura de Mendonça
-
capa5 dias atrás“Missionárias” usavam a religião para ter relações com presos do CV, diz Polícia
-
capa4 dias atrásPesquisa aponta oração diária e boa frequência aos cultos na maioria dos evangélicos
-
capa23 horas atrásTéo Hayashi comenta livro de Guilherme Boulos: “A esquerda perdeu o povo”