opinião
O pior livro do mundo
Nunca tão poucas páginas produziram tantos danos.[1] Benjamim Wiker
Se as autoridades alemãs soubessem quanto sangue seria derramado, quantas injustiças seriam feitas e quanto ódio a pessoas inocentes seria manifestado como resultado do Mein Kampf (Minha luta) o manuscrito teria sido destruído. Hitler o publicou e liberou para o mundo ideias destruidoras que até hoje assombram a humanidade. Os resultados históricos falam por si. Aquelas ideias produziram males sem fim em muitas áreas. Defender hoje aquilo que poderia ser chamado de A Bíblia do Nazismo seria impossível para qualquer mente sã. O fruto produziu conforme a sua semente.
E, no entanto, não estou falando do Mein Kampf. Estou me referindo a outro livro com conseqüências ainda piores – O Manifesto Comunista. Ele foi síntese e semente das ideias e práticas mais destruidoras do século XX. “Já o Manifesto Comunista é um texto denso, explosivo, de imensa força. Com vigor impressionante, em suas quarenta ou cinqüenta páginas estão contidas uma teoria geral da história, uma análise da sociedade europeia e um programa de ação revolucionária” [2]
Em termos de contagem de cadáveres e opressão social o opúsculo de Marx e Engels faz a obra de Hitler parecer um conto de fadas para embalar crianças. De fato, as ideias ali contidas transformaram o mundo, ou pelo menos uma parte dele, geográfica e demograficamente falando, em um inferno muito maior do que a Alemanha nazista.
Com o pretexto de banir o mal produzido pelo capitalismo, o marxismo e tudo o que dele derivou produziu e continua produzindo uma quantidade infinitamente maior de opressão e mortes. Transformou países em Gulags, cidadãos honestos em criminosos, discordantes em vítimas. Sim, matou inúmeros opressores e preencheu o lugar deles com opressores piores ainda. Em nome de uma falsa igualdade sacrificaram a verdadeira liberdade. Impossível contar os cadáveres, os prisioneiros, os oprimidos e a corrupção produzidos por aquela pequena publicação de 1848. Até hoje aqueles que inspiraram suas ideias e atos no Manifesto lutam para esconder os cadáveres embaixo do tapete da história em uma tentativa inútil de inocentar culpados e vitimizar os autores. Não há como.
Li o Manifesto Comunista diversas vezes e não se pode desvincular seu conteúdo da opressora e sangrenta história do comunismo. No princípio era a pena contra a espada, até que a pena se apossasse completamente da espada para então com ela calar todas as penas. Era uma ideologia nascida com a ânsia do poder totalitário com o qual calaria todas as ideologias. Temos nele o totalitarismo puro e ainda que teórico, defende o totalitarismo na prática. Fala de justiça apenas para justificar a si mesmo pelas injustiças que cometeria. Não foram as conseqüências do Manifesto Comunista que produziram tantos males. Foram os pressupostos do mesmo que produziram as conseqüências. Nada foi um acidente de percurso e sim o próprio percurso, pré traçado e realizado com a precisão de uma micro-cirurgia.
As sementes do mal totalitário foram todas plantadas pelo Manifesto. A ideia de “derrubada violenta da burguesia”[3], proposta por ele foi levada ao pé da letra pelos marxistas, para quem qualquer opositor não passa de um burguês que deveria ser morto. E qualquer ato que sirva para se chegar aos objetivos é plenamente justificável. “A ética comunista (…) se dá o direito de todos os meios de mentira e de violência para derrubar a velha ordem e fazer surgir a nova”[4].
Dessa forma o bem e o mal tomaram novas formas à partir do Manifesto Comunista. A ética cristã representada pelos Dez Mandamentos perdeu todo seu efeito e no lugar o certo e o errado passaram a ser definidos pelos seguidores de Marx de acordo com sua utilidade ou não para a implantação do comunismo. Como expressou Edmundo Wilson:
“Há em Marx uma discrepância irredutível entre o bem que ele propõe à humanidade e a crueldade e o ódio que ele inculca como meio de chegar ao bem – uma discrepância que, na história do marxismo, deu origem a muitas confusões morais”.[5]
“Pode-se ter a impressão de que Marx mantém bem separados o capitalista mau de um lado e o comunista bom do futuro no outro; no entanto, para chegar a esse futuro, é necessário que o comunista seja tão cruel e repressivo quanto o capitalista; ele também tem que violentar aquela humanidade comum que o profeta prega. É uma grave deformação minimizar o elemento sádico dos escritos de Marx”.[6]
Temos ainda que acrescentar o testemunho do historiador Paul Johnson, onde a conexão entre o pensamento de Marx e a violência que ele produziu é algo bastante evidente:
“não há nada no período de Stalin que não estivesse prefigurado, de uma grande distância no tempo, pelo comportamento de Marx (…) “Nós somos impiedosos e não queremos nenhum centavo de vocês. Quando chegar a nossa vez, não vamos reprimir o nosso terrorismo”, disse Marx, dirigindo-se o governo prussiano. “Muitas passagens dão a impressão que foram realmente escritas em estado de cólera. No devido tempo, Lenin, Stalin e Mao Tse-tung puseram em prática, numa imensa escala, a violência que Marx trazia em seu íntimo e que transpira em sua obra”.[7]
Esta exposição é apenas o começo de tudo aquilo que o Manifesto Comunista produziu em seus mais de cento e cinqüenta anos de história. Na verdade, a julgar pelos seus frutos, ele devia ser definitivamente proibido ou classificado entre os livros perigosos, como fizeram com o Mein Kampf. Ainda que de forma sintética, como veremos em outra ocasião, tudo já estava nele, desde a perseguição religiosa e a destruição da família até os governos totalitários e a censura da imprensa.
Se tivermos em uma mão o Manifesto e na outra, livros de história do comunismo, então, será impossível não perceber porque ele merece o título de “o livro mais perigoso do mundo”.
[1] WIKER, Benjamin, Dez livros que estragaram o mundo. Lisboa: Aletheia, 2011.
[2] WILSON, Edmund. Rumo à estação Finlândia. São Paulo: Companhia das letras, 2006, p. 186
[3] MARX E ENGELS. O manifesto comunista. São Paulo: Global Editora, 1986, p. 28.
[4] BESANÇON, Alain. A infelicidade do século. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 51
[5] Op. Cit. p. 353
[6] Op. Cit. p. 358
[7] JOHNSON, Paul, Os intelectuais. Rio de Janeiro: Imago, 1990, pp. 83, 84
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