opinião
Quando a vida vale uma bicicleta
“Que Deus nos dê força para criar um Brasil cada dia mais seguro”
Jaime Gold, 55, médico cardiologista do Hospital do Fundão. Atleta amador, conhecido pelo bom humor, obstinação e responsabilidade – após o divórcio, assumiu a criação de seus dois filhos. Querido pelos vizinhos, amigos e pelos companheiros de trabalho, abriu mão de seu consultório privado para se dedicar à medicina pública. Eis que esse homem, que doou a vida para salvar vidas, foi assassinado a facadas na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. O motivo? Os jovens bandidos queriam levar sua bicicleta. Conseguiram. Mas levaram junto vida dele.
O ato, monstruoso, nos faz refletir sobre a violência galopante que se instalou no Brasil. Em 2012, houve 56.337 assassinatos, 7% a mais que no ano anterior. Na década de 2010, já chegam a 556 mil as vítimas de homicídio, segundo o Mapa da Violência de 2014, o que colocou o país na lista daqueles cujo saldo de mortes decorre de conflitos armados.
A matança deu o empurrão que faltava para que a Câmara dos Deputados aprovasse o projeto que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal. Agora está sob a avaliação do Senado a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 171) que institui essa mudança no Código Penal – um debate que se arrastava há 12 anos no Congresso e renasceu no dia em que o valor de uma vida, abreviada a frio e a facadas, foi reduzido a uma bicicleta.
“Não matarás”, o sexto dos dez mandamentos ordenados aos homens, é preceito fundamental da existência em Cristo. Se não por fé, que sejam guiados pelo bom senso e ao respeito à vida aqueles que discutem o assunto. Um jovem de 16 anos não tem o discernimento do que faz? Não tem que se sujeitar à Lei Penal que vale para aquele seu irmão que em idade está dois anos à sua frente?
Acredito que o argumento da consciência pelos próprios atos esteja superado no momento atual. Persiste, porém, e com alguma razão, o alerta de organizações sociais e de segmentos do próprio governo para a inexistência de uma estrutura adequada para receber jovens infratores, assassinos, assaltantes, latrocinas.
Concordo que não há bem em favor da vida condenar um jovem à internação na escola de crimes em que se transformou o sistema penitenciário brasileiro? Ao Estado que condena cabe também a responsabilidade por prover uma estrutura adequada para que esses jovens delinquentes paguem sua fatura com a sociedade, sim, mas também se restabeleçam em seus valores, em suas relações com o mundo para serem cidadãos formados para a vida. Mude-se a lei, ao mesmo tempo em que seja determinado às autoridades dar início à preparação dessas novas estruturas.
É intolerável que sejamos nós, os cidadãos de bem, cumpridores da lei e lutadores do dia a dia, os condenados a viver sob a ditadura do medo e da ameaça de morte.
Que criminosos, como os que tiraram a vida do médico Jaime Gold, paguem por seus atos nos termos das Leis do Homens, na exata medida de sua culpa e da Justiça. E que Deus nos dê força para criar um Brasil cada dia mais seguro. Sem violência. Um Brasil realmente de todos!
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