Os advogados que representam o prefeito afastado de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), manifestaram-se publicamente após o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público Federal. Em nota assinada pelos criminalistas Daniel Leon Bialski, Bruno Garcia Borragine e André Mendonça Bialski, a defesa afirmou que o político “refuta veementemente as acusações”. O documento classifica a denúncia como “fruto de investigação completamente nula” e atribui o caso a uma “perseguição política”.
A peça acusatória, subscrita pela procuradora regional da República Cristina Marelim Vianna, aponta a existência de um esquema articulado para desvio de recursos públicos em Sorocaba. A denúncia, que também atinge a esposa do prefeito, Sirlange Rodrigues Frate Maganhato, e outras onze pessoas, descreve os crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, peculato, fraudes em licitações e contratações ilegais.
Estrutura do Esquema
De acordo com a representação do MPF, embora não houvesse hierarquia rígida nos moldes de organizações criminosas tradicionais, o grupo estruturava-se em torno da figura do chefe do Executivo municipal. A procuradora destaca que Manga era “peça-chave em razão de seu cargo”, sendo o único com poder para assumir obrigações em nome do município. Servidores de alto escalão, como o ex-secretário de Administração Fausto Bossolo e o ex-secretário de Saúde Vinícius Rodrigues, são apontados como facilitadores das fraudes.
“A materialidade reside na comprovação de que há uma estrutura articulada e organizada para o desvio sistemático de recursos públicos, com uma complexa teia de relacionamentos e atuação coordenada”, afirma Cristina Marelim Vianna na denúncia.
Operação Copia e Cola
O caso é desdobramento da Operação Copia e Cola, deflagrada pela Polícia Federal em novembro, que resultou no afastamento cautelar de Manga por 180 dias. As investigações apontam indícios de fraudes na contratação emergencial do Instituto de Atenção à Saúde e Educação (ACENI), organização social que administrava unidades de saúde municipais.
Os investigadores identificaram movimentações atípicas que teriam sido utilizadas para lavagem de capitais, como depósitos fracionados em espécie, pagamento de boletos e transações imobiliárias.
Contrato com Entidade Religiosa
Um dos eixos centrais da denúncia envolve contrato firmado em 2021 entre a empresa de publicidade da primeira-dama — então denominada Sirlange Rodrigues Frate – ME, atualmente 2M Comunicação e Assessoria — e a Igreja Cruzada dos Milagres dos Filhos de Deus. A entidade religiosa é liderada pelo bispo Josivaldo Batista e pela pastora Simone Rodrigues Frate de Souza, respectivamente cunhado e irmã de Sirlange.
O instrumento contratual previa serviços de marketing, com pagamentos que somaram R$ 780 mil entre fevereiro de 2021 e junho de 2023. A Polícia Federal, contudo, sustenta que os serviços nunca foram prestados. O contrato, segundo a acusação, teria sido elaborado apenas para conferir aparência lícita à transferência de valores desviados de contratos municipais.
Em abril, durante cumprimento de mandados de busca da Operação Copia e Cola, foram apreendidos R$ 903 mil em espécie na residência do casal Josivaldo e Simone.
Núcleos da Organização
A denúncia estrutura os investigados em três grupos:
Núcleo Político: liderado por Rodrigo Manga, apontado como destinatário de vantagens indevidas. Segundo a acusação, despesas pessoais do prefeito — como mensalidades da faculdade de sua filha, clube social e manutenção de cavalos — eram custeadas por intermediários. O grupo inclui Fausto Bossolo, apontado como coordenador do direcionamento da contratação da ACENI, e Vinícius Rodrigues, ex-secretário de Saúde, que teria modificado atos administrativos para viabilizar o acordo.
Núcleo Operacional: composto por representantes da ACENI, como Paulo Sirqueira Korek Farias e Anderson Luiz Santana, responsáveis pela interlocução com agentes públicos e operacionalização dos contratos. Sérgio Ricardo Peralta é apontado como participante da estrutura de desvio mediante subcontratações simuladas.
Núcleo de Lavagem de Dinheiro e Intermediação Financeira: destaca-se Marco Silva Mott, apontado como intermediário da propina, que teria recebido 258 depósitos em espécie totalizando R$ 6.520.406,05. Em sua residência foram apreendidos R$ 646.350,00 em dinheiro vivo. Sirlange Maganhato é acusada de receber recursos mediante contratos simulados e ocultar origem de pagamento de imóvel.
Josivaldo Batista é apontado como guardião de mais de R$ 700 mil em espécie, mantendo contabilidade paralela com registros de entradas e saídas. Simone Rodrigues é acusada de utilizar a entidade religiosa para simular contrato mensal com a 2M Comunicação e de realizar pagamentos de despesas pessoais do casal Manga.
Posicionamento da Defesa
Em nota, a defesa de Rodrigo Manga sustenta que a denúncia decorre de “investigação completamente nula, porque iniciada de forma ilegal e conduzida por autoridade manifestamente incompetente”. Os advogados afirmam que todas as condutas do prefeito “sempre foram pautadas pela legalidade, transparência e pelo compromisso com o interesse público” e declaram confiança de que a inocência do político e de seus familiares será comprovada no curso do processo. Com: GospelMais.